18 de mai de 2013

Sobre o Amor 1

_Não... Eu estou enjoado de beijos e pessoas vindo e indo da minha vida. Acho que preciso parar um pouco com isso. Eu não sei o que é amor.
_Concordo, mas você nunca me ouve, sempre te digo isso - disse Sotero num sussuro.
Fulton sorriu, tendo que concordar.
_ Preciso ir pra casa agora, obrigado por me ouvir Sotero... Você sempre abre minha cabeça.
_Tá bom, até mais - disse em um abraço amigável.
Os dois caminharam em direções diferentes e cada um com uma coisa em mente. Fulton pensava em como evitaria sua natureza impulsiva nos assuntos românticos, mas o pensamento de Sotero era bem mais profundo. Ele pensava sobre o amor. E foi atropelado.

O resultado do atropelamento foi uma perna quebrada, duas costelas fraturadas e milhares de  hematomas. Sotero perdeu parte da memória com o impacto e felizmente, até agora, só havia esquecido o que tinha feito no dia anterior. Numa visita de familiares e amigos, o quarto do hospital se encheu. Sotero sorria deitado na cama e conversava normalmente com todos. A sua tia, que sempre lhe dava doces; a prima, que sempre conversava por horas no telefone; a mãe, que sempre cuidou dele... Todos estavam ali! Era uma alegria que não podia se conter no peito. O médico aconselhou que cada um visitasse em tempos diferentes, aos poucos. O segundo a entrar foi Fulton.
_Ei Sotero! Que saudade de você.
_Quem é você?
Fulton riu mas Sotero permanecia sério.
_Não lembra de mim? Fulton, seu amigo! Você tem que lembrar.
Ele se contorceu na cama e olhou para aquela pessoa com estranheza. Fulton recebeu aquele olhar como um tiro entre seus pulmões e seu coração acelerou. Não suportaria ter que refazer aquela amizade incrível.
_Mas amigo, passamos tantos momentos juntos... Essa batida de carro não pode ter feito você esquecer, pelo amor de Deus - disse com os olhos cheios de lágrimas.
Sotero se assustava mais a cada palavra que Fulton dizia, o que o deixava em estado de desespero.
_Eu... Não lembro de você. Desculpa.
Fulton botou as mãos no rosto e soluçava. As lágrima escorriam naturalmente. Levou um tempo pra pensar. Rodou pelo quarto, sempre olhando pra Sotero. Batia os pés esperando o tempo trazer o amigo de volta, respirava fundo, coçava acabeça, batia no próprio rosto. Olhou pro teto, respirou fundo e disse:
_Cara, eu poderia ter morrido sem ter que te perder. Não fisicamente, mas nas memórias. Eu preciso de você, dos seus conselhos, da sua amizade, de você na minha vida. Eu sei que tá parecendo uma declaração de amor, mas é que eu não consigo pensar em que não sou mais seu amigo. Que você não lembra de mim!
Sotero estava indiferente e olhava pra janela, tentando afastar aquele estranho esquesito pra longe dele.
_Você poderia sair do meu quarto? Desculpa, mas eu preciso descansar...
Fulton balançou a cabeça, ajoelhou-se perto da cama, segurou a mão de Sotero em forma de concha e colocou uma lágrima lá dentro.
_Fique com minha lágrima, por que tudo o que você fez por mim foi pegá-las. Acho que essa pode ser a última que você vai pegar, realmente e infelizmente.
Sotero desastrosamente se sentou na cama e segurou a cabeça de Fulton pelo queixo, com a outra mão e com cara brava. Os dois se olhavam intesamente. Sotero levantou a outra mão em forma de punho em direção ao rosto do rapaz e em alta velocidade lançou um soco na face de Fulton, parando a poucos centimetros do nariz. Abriu a mão e passou em baixo dos olhos dele, calmamente.
_Toma sua lágrima de volta. Agora você sabe o que é o amor. Não é alguma coisa que você vai achar em uma esquina qualquer e só por um noite, ou só por alguns meses. É profundo. É intenso. É a mistura de muitos outros sentimentos, se não forem todos. É o último passo pra felicidade. E você sabe o que é agora. Sou um ótimo ator, não é Fulton?