28 de jan de 2013

A brisa de um sorriso

A praia parece tão linda daqui de cima. Um oceano azul com pássaros entrelaçados com o ar, pessoas transitando na praia, um casal rindo. E eu aqui, nessa cadeira de rodas, velho, sem forças. Meus filhos moram longe, minha mulher morreu. Sobrou eu e a varanda voltada para o mar. A brisa que vem de lá me faz sentir o amor. Eu acho que é o amor. Então alguém bate na porta.
Fiz forças pra me locomover com a cadeira até a porta. Era Madalena, a moça que cuidava de mim, dava os remédios, fazia minha comida. Gostava dela. Era gentil, simpática, elegante e ao mesmo tempo trabalhadora.
_Seu Arlindo? Tá na hora do café!
_Oba, adoro seu café.
Usei minhas mãos frágeis pra demonstrar minha felicidade. Peguei a xícara e fiz força para não tremer. Olhei nos olhos de Madalena e vi algo bom.
_Madalena? Vou te perguntar algo.
_Diga seu Arlindo...
_Por que você sempre se recusa a me levar a praia?
Madalena respirou fundo e se preparou para dar a mesma resposta que ela sempre dava e seu Arlindo esquecia.
_Seus filhos me pediram para não te levar lá. Disseram que você precisa ficar aqui, pra evitar contato com coisas estranhas que podem afetar sua saúde.
A campainha tocou. Madalena atendeu e era a família que morava ao lado. Chamavam Madalena porque havia acontecido algo estranho na casa dele. Ela foi até o apartamento deles mas pediu que um deles ficasse me vigiando. Um homem não tão velho e não tão novo ficou na minha porta.
_Qual o seu nome, jovem?
O homem pareceu me ignorar, mas fixei o olhar nele.
_Inntur - disse de cara fechada.
_Esse é seu nome mesmo? Os pais de hoje estão mais criativos!
Virei minha cabela para ver a vista da varanda e depois voltei para ele.
_Você me faria um grande favor?
Silêncio.
_Me leva até a praia ali?
O homem continuou com a mesma expressão. Ao ver que nada aconteceria, eu movi minha cadeira para a varanda novamente. Ao chegar lá, uma força me puxou de volta. Era Madalena me levando ao banheiro. Hora do xixi. E o homem tinha ido pro seu apartamento.
O dia passou tranquilo, acordei, me coloquei na cadeira de rodas com alguma dificuldade e me dirigi a varanda. O céu estava azul, o sol forte, o mar bem azul. Estava na hora de Madalena chegar. A campainha tocou e era ela que estava lá, como de rotina. Ela disse que estava apertada e queria ir no banheiro antes de qualquer coisa. Percebi que ia demorar. Usei minhas poucas forças para fugir da minha casa e ir em direção ao elevador para poder ir para a praia. Apertei o botão e esperei. Quando o elevador abriu, Inntur estava lá e fez cara feia pra mim. Tentei puxar conversa, mas não funcionou. Sai do elevador e vi a rua através do vidro do hall de entrada do condomínio.
_Seu Arlindo? O que faz aqui? Não deveria estar em seu apartamento?
_Ora, ora minha jovem - confesso que demorei um pouco para lembrar o nome daquela bela moça - Jussara! Estou acompanhado por esse jovem aqui - levantei meu dedo e apontei para Inntur. Ele fez cara de espanto.
_Então tudo bem, bom passeio.
Olhei para Innur e sorri.
_Agora você me leva?
Inntur respirou fundo e começou a empurrar a cadeira. A cada centimetro movido meu coração enchia mais de felicidade. Atravessamos a rua, e então, chegamos na calçada ao lado da praia. Ali ele parou e ficou atrás de mim, com cara feia e eu sorrindo sentindo a brisa. Passaram tantas pessoas pra lá e pra cá, mas passou um menino de amarelo que nos notou, olhou com cara estranha e depois deu um sorriso magnífico. Senti que era isso que tinha vindo procurar na praia. Inntur continuava de cara feia.
_Podemos voltar? - disse ele secamente.
_Não, espere mais um pouco.
Passou mais um tempo.
_Agora vamos.
Na hora de atrevassar a rua, eu  me joguei da cadeira. O semáforo apontou para o verde.
_Seu velho doido! E agora, os carros estão vindo!
Inntur tentava me colocar de volta na cadeira, mas eu usei minha últimas forças e comecei a falar para ele:
_Todo dia eu ouvia o que você fazia com sua mulher. Todo dia eu vigiava o horário que você saia. Eu não suporto o quanto você é ridículo com sua esposa. Ela faz de tudo pra você e você a trata daquele jeito. Você não a merece. Eu sei que você mata pessoas por prazer. Eu ouço ela discutindo com você. Eu não ignoro isso. Você não merece a vida. Eu que sou um velho e tosco mereço ela mais do que sua cara hipócrita.
Inntur me soltou e respirou fundo.
_E agora eu vou morrer e a culpa vai ser toda sua de ter me levado para passear. Eu queria ver o mar porque queria sentir o amor. Forjei tudo isso só para você me trazer aqui. Esperei até alguém dar um sorriso amoroso para nós, para ver se você sentia o amor - os carros buzinavam e desviavam de nós - que as pessoas podem dar e trazer. Planejei minha fuga, e fiz todos os caminhos para acreditarem que foi você quem me trouxe, me forçando e me atirou na rua. Agora você vai ter o que merece.
Rolei pro lado e um carro me atropelou. Mal sabia eu que tudo o que eu ouvia era uma série que o casal assistia toda noite. Mal sabia eu que Inntur amava a esposa. Mal sabia eu que o mar era tão lindo.
Mal sabia eu que me intrometer nem sempre me faz heroi. Mas eu morri feliz. Vi o sorriso de um jovem. Um sorriso incrível que me fez mudar de opinião e eu voltei para casa, com Innur me levando. Tomei esporro de Madalena, e logo voltei para a minha varanda. E para a brisa.
A praia parece tão linda daqui de cima. Um oceano azul com pássaros entrelaçados com o ar, pessoas transitando na praia, um menino que passou e riu.