3 de jan de 2013

Genesquecido

Era tarde ou noite? Não sei dizer. Estava afundado em uma cadeira negra de couro, assistindo vídeos. Não vídeos comuns com pessoas se espatifando no chão ou fazendo palhaçadas umas com as outras. Eram vídeos especiais. Parecia estar numa floresta de cabeças, de tantas pessoas ali dentro. Se bem que o lugar era bem pequeno. Um auditório. E um telão.
_Jebs? Você tá dormindo? - alguém do meu lado pergunta.

Eu me ajeito na cadeira confortável, balanço a cabeça como sinal de não e continuo a assistir mais uma história.
_Agora é a do Marcelo que tá passando. Ele era um fofo na infância.
Nayara! Era esse o nome da pessoa do meu lado. Mas porque eu estava assistindo aquilo? Não me lembro como fui parar ali.
_Ele estudou em cinco escolas diferentes em cinco anos. Deve ter sido difícil a adaptação.
_Verdade! - respondi animado.
Agora tinha lembrado o que fazia ali. Estava assistindo a história de vida das pessoas que eu convivia. Cada um fez um vídeo pra passar no telão do auditório e eu, é claro, fiz o meu. O telão apagou. Ouvi aplausos e acompanhei, mas só fiz isso porque estava dormindo e tinha que dizer que estava acordado. A luz se fez de novo e o nome da tela foi o da Nayara. Olhei pra ela e sorri. Ela retribuiu.
_Estou nervosa Jebs.
_Seu passado deve ser incrível Nay.
Eu estava mais nervoso que ela. Não pelo que ia passar no telão sobre ela. Estava com medo da minha história. Eu não lembrava dela. Pedi para que meus pais dessem depoimentos, meus irmãos, primos. Eu havia esquecido de como eu era.
_"Durante a minha infância, morei dois anos em Pernambuco..." - meus pensamentos foram interrompidos pelo video e resolvi prestar atenção. Alguns minutos depois a tela se apagou. Todos aplaudiram, Eu sorri fortemente para Nay e ela ficou vermelha. Não consegui ver isso, mas devo ter percebido por conhecer ela bem. A luz se fez novamente. Gelei. Vi um título: JEBS. Morri internamente. O que as pessoas achariam de mim depois disso? Meu coração palpitava.
_Jebs nasceu sorrindo. Ele era lindo, tinha olhos de jabuticaba... Eu o amei mais ainda. - E essa era minha mãe falando no depoimento. Depois apareceu meu pai na tela.
_Era uma criança calma, gostava de ser jogada pra cima...
E todos meus familiares foram falando coisas fofas e lindas de mim. Até que minha mãe surgiu de novo.
_Então ele começou a.. apresentar uns sintomas esquisitos. Não sabia o que era e o levei no médico.
Meu pai entrou na cena.
_ O médico disse que ele tinha uma doença rara - enxugou os olhos e respirou. Minhas lágrimas cairam junto as dele - Era uma doença que fazia ele esquecer as coisas ruins do passado. Ou transformava essas lembranças em algo bom. E isso era bom. Só que essa doença levava algumas memórias necessárias juntas...
Uma pausa. Minha mãe continua.
_Ele esquecia como andava de vez em quando. Ele esquecia... que eu era mãe dele.
Eu respirei fundo. Era disso que tinha medo. Que minha doença voltasse com mais força. Eu realmente não lembrava das coisas que aconteciam de mal comigo. Eu já havia quebrado a perna umas duas vezes, mas pra mim isso nunca tinha ocorrido. Só as pessoas que me recontavam isso. Eu era incrivelmente feliz. Exalava felicidade para os outros. E ninguém me entendia.
E minha história continou, com minha superação da doença, diminuição dos sintomas, das minhas lembranças... No final do video eu sorri. Nayara olhou pra mim e estava prestes a chorar. Se levantou e me deu abraço forte.
_É por isso que o Jebs é assim! Agora eu entendo! - alguém gritou.
De repente uma multidão de gente ficou a minha volta, sorrindo, me abraçando, beijando minha testa. Eu tive medo esse tempo todo que as pessoas me achassem estranho demais pra se aproximarem de mim, mas elas só queriam uma explicação do que eu era. Eu era feliz demais e isso assustava as pessoas. Era porque eu não lembrava das minhas experiências negativas.
Aprendi naquele dia que você tem que arriscar a compartilhar quem você é, da maneira que conseguir. Textos, desenhos, música, arte, palavra, vídeo. Seja como for, eu tinha que mostrar as pessoas como eu era por dentro. Não é preciso ter medo das pessoas boas. Você só tem que ser você que uma hora as coisas se ajeitam. Não busque aceitação, porque todos tem conceitos, maneiras, costumes e outras coisas diferentes. Busque você.
O mais incrível é que infelizmente eu esqueci disso tudo no outro dia.