11 de set de 2012

Prisão

Sanjana apaixonou-se. Ele passava todo dia por ela no caminho da escola, assim como aqueles clichês de filmes, tipo aquela cena que tudo aparece em slow-motion. E então Sanjana começou a namorar com Brad, mas o romance dos dois era por baixo dos panos. O pai dela não aceitava ver a filha namorando, e ela já havia tomado uma surra por ter beijado um menino. A pressão que seu pai fazia sobre sua vida era imensa. Sanjana não podia sair desacompanhada, não podia ficar acordada até tarde, não podia namorar, e principalmente não podia tirar notas baixas. Ela não gostava de imaginar o que aconteceria com ela se  quebrasse as regras do ditador "Meu Pai".
_Hoje vou entregar as provas.
O coração de Sanjana bateu mais rápido. O nome dela foi um dos primeiros. E nota não era nada agradável. O primeiro pensamento que veio foi que ela seria espancada pelo pai. Duas regras quebradas, namorar e notas baixas. Pelo menos ele ainda não sabia.
_Posso ir ao banheiro professora?
_Pode.

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_Você ficou sabendo do Seu Arlindo?
_O que tem ele? - disse uma das velhas fofoqueiras do bairro.
_Ele faleceu. Ontem a tarde, depois do almoço - respondeu a outra.
_Nossa, que tristeza...
_O Seu Antônio da mercearia também morreu, ontem a noite.
_Nossa... Duas mortes! Que tristeza - disse exaltada.
_Pois é, vamos rezar pra que essa onda não chegue mais perto.
As duas velhinhas ficaram sentadas no mesmo banco, esperando a vida passar, fofocando sobre as pessoas do bairro. Até que, com cara de nervoso, chega José Luiz.
_Ei Teresa, oi Arlete, vocês viram Sanjana por aí? Não voltou da escola e já passou uma hora da hora da saída.
_Não, hoje eu não vi ela passando por aqui... E aqui perto de casa estão todos tristes com a morte do Seu Antônio, por que os parentes dele moram ali - respondeu Teresa.
_Ninguém da minha rua viu também, estão todos tristes com a morte de Seu Arlindo.
_Tudo bem então, vou até a escola dela ver se ela está por lá.
José Luiz, ou o "Meu Pai" saiu desesperado na busca da filha recém-sumida. Perguntava a todos que ele conhecia, mas não obtinha resposta. Descobriu na escola que Sanjana nem por lá tinha passado, então a raiva aumentou. Ele viu uma aglomeração na frente de uma casa próxima à escola e perguntou a uma mulher o que era.
_O que está acontecendo aí?
_É o velório do seu Petrônio. Faleceu hoje de manhã...
_Nossa, quantas pessoas morrendo nesse bairro! Que Deus nos livre disso...
_Sim, Deus nos livre...
José Luiz perguntou sobre a filha, mas ninguém a tinha visto. Voltou pra casa e no fim da noite relatou a polícia.
_Ela não deixou nada em casa, algum sinal de que não iria na escola? - perguntou o policial.
_Não sei, vou ver no quarto dela.
José voltou com um caderno e balançou na frente da cara do policial. E um envelope caiu de dentro. Um envelope com uma carta.

"Pai,
Escrevi essa carta pra te dizer que quebrei duas das suas "leis". Eu me apaixonei e como você não aceita, fugi. Além disso minhas notas estão baixas e tenho escondido de você. Tenho tanto medo que você me mate. Então talvez eu me mate primeiro. Não tente me procurar que você não vai me achar. Não aguento mais sua pressão sobre minha vida!
Sanjana."

_Tudo bem com o senhor? - perguntou o policial.
_Continuem procurando, por favor - disse seco.
_Com certeza.
_Boa noite - falou de cabeça baixa e olhar triste.

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_Bom dia Sanjana - disse Brad.
_Ontem a noite foi ótimo.
_Eu sei, eu sei... Foi bom demais. Talvez a gente repita, né?
_Talvez? Com certeza!
Brad sorriu para ela e deu um beijo. Já era quase meio dia e eles ainda estavam na cama, debaixo dos lençóis. Em um susto os dois ouvem alguém gritar na frente da casa.
_Bom dia, por acaso você viu essa menina? - encarou o policial mostrando a foto de Sanjana.
_Não, não vi - mentiu Brad, querendo escondê-la.
_Então porque o sue vizinho te viu com ela ontem a noite?
_É, é... Ele viu eu com minha namorada, não era essa menina.
_Posso entrar na sua casa e checar se tá tudo OK então?
Brad respirou fundo.
_Pode.

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Sanjana foi levada para casa imediatamente. Quando chegou, seu pai já esperava, com braços abertos e lágrimas nos olhos. Sanjana estranhou isso imensamente. Ela saiu da viatura e deu um grande abraço no pai. Ele pediu desculpas, mas Sanjana se sentia dura, com uma alma de pedra.
_ Pai, que devo desculpas, achei que conseguiria fugir de você.
_Felizmente não.
_Mas de qualquer jeito eu vou fugir.
José fez cara de nervoso e jogou palavras pelo ar, xingamentos e frases incompletas.
_Eu não vou te ver por um longo tempo - sorriu ela maliciosamente.
_Como assim? - calmamente falou.
_É verdade que Seu Arlindo dali da frente morreu?
_Não muda de assunto.
_E ouvi dizer que Seu Antônio da Mercearia também.
O "Meu Pai" respirou fundo e começava a ficar nervoso. Enquanto isso a polícia fazia uma documentação.
_E fiquei sabendo que Seu Petrônio faleceu. É uma onda de mortes né?
José Luiz sentiu-se confuso, mas começava a perceber.
_Me explica isso direito, e agora. - respondeu ríspidamente.
Sanjana sorriu, olhou para os lados e coçou a cabeça.
_Eu me apaixonei pelo Brad. Eu transei com ele. Várias vezes ontem- "Meu Pai" estava se segurando para não bater nela - mas eu sabia que você descobriria se eu não sumisse. Então eu arranjei algumas distrações para o povo não perceber enquanto eu estava fugindo. Matei Seu Arlindo quando ofereci café com muito veneno de rato e pólvora, depois encontraram ele morto e acharam que era morte natural. Aí nossa rua já estaria livre de olhares ontem de manhã, na hora que estava indo.
José Luiz estava tão chocado que permanecia paralisado.
_Depois matar Seu Antônio foi fácil. Ele tinha uma mercearia, cheia de prateleiras pesadas. E você sempre pede pra eu ir comprar algo, todo dia. Desparafusar um delas sem ele ver e garantir que ele mexesse nela foi como tirar doce de criança. Aí a rua de cima estaria livre para minha circulação sem olhares alheios.
Os policiais estavam perplexos e continuavam olhando.
_O único lugar que me olhavam era a escola. Seu Petrônio morava ali na frente e era velhinho demais. Empurrá-lo enquanto eu pedia um copo de água foi um pouco difícil, mas depois que ele caiu percebi que a morte tinha chegado. Só me restava ir pra casa do Brad e fazer tudo que sempre quis. Deixei o bilhete pra te distrair. Mas como você me achou?
A polícia estava algemando Sanjana, e o "Meu Pai" olhava, arrependido e impressionado.
_Nós te achamos porque alguém notou que você gostava do Brad. E agora você vai gostar das grades.
_Pelo menos eu vou ficar longe do meu pai.
_Você vai se arrepender de ter dito isso mocinha.
O pai ficou paralisado, na frente da porta da casa, como uma estátua. Ficou pensando como seria se tivesse dado um pouco de liberdade para a filha. Como seria ter demonstrado carinho. Ficou pensando que era tudo sua culpa. Culpa do "Meu Pai". E a polícia se foi com Sanjana. O problema é que José Luiz acreditava que a verdadeira prisão não era sua filha na cadeia. A prisão tinha sido criada ao longo dos anos e agora o preso era ele. Preso em pensamentos. Preso na culpa. Amaldiçoado com o ódio.