10 de set de 2012

Mudanças no cafezinho

Plínio era um garoto que recusava ser enganado e muito menos aceitava a derrota. Não gostava de ser contrariado ou dar foras. Não gostava disso, não gostava daquilo, não suportava isso, não, não, NÃO! Quando era pequeno, sua mãe fugia de concursos, olimpíadas e competições porque sabia qual seria o resultado. E Plínio cresceu do mesmo jeito. Não que ele fosse uma pessoa ruim. Ele era simpático, amável e adorável. Mas não aguentava não ser o primeiro. E alguém não suportava isso.
_Você é sempre assim?
_Oi? - respondeu Plínio estranhamente.
_ É! Você mesmo. Eu vi como você agiu quando perdeu naquele jogo de cartas.
_Eu não perdi, foi pura trapaça do meu amigo - disse ele em tom de revolta.
_Então você é assim todos os dias mesmo.
Plínio sentiu uma quentura na garganta, uma explosão na cabeça e uma eletricidade na língua. Mas resolveu parar no último instante antes de soltar o verbo. Fechou os olhos e balançou a cabeça, contou até três. Quando abriu os olhos, acordou. Estava sonhando. Esfregou as mãos nos olhos e fez sua rotina matinal. Não conseguia tirar o que havia acontecido no sonho da cabeça. Saiu e foi para o trabalho a pé, como usualmente. Perdido nos seus pensamentos ele esbarrou em alguém e os dois caíram no chão. Ao olhar pra pessoa ele a reconheceu:
_Você! É você! - disse Plínio apontando o dedo.
_Eu? Desculpa! O que eu fiz? - respondeu ela calmamente.
Uma mulher com seus 30 anos olhava duvidosamente para Plínio, esperando uma resposta.
_Você estava no meu sonho, dizendo coisas sobre a minha pessoa.
_E eu tenho culpa de aparecer no seu sonho?
Plínio parou e percebeu que era uma estupidez o que estava fazendo.
_Desculpa! Acordei meio estranho... Aceita um café como desculpas? Estou adiantado.
_É, tudo bem... - respondeu ela sorrindo.
Chegaram em uma lanchonete e estavam esperando serem atendidos. Um casal chegou depois e foi atendido primeiro. Plínio revoltou-se imediatamente. Levantou-se e reclamou com a garçonete, com o cozinheiro, com o casal e com todos. Depois que foi atendido, sentou novamente.
_Você é sempre assim?
_Oi? - respondeu Plínio estranhamente.
_ É! Você mesmo. Eu vi como você agiu só porque aquele casal foi atendido primeiro.
_Eu não fiz nada de errado, foi culpa do mau atendimento dessa lanchonete - disse ele em tom de revolta.
_Então você é assim todos os dias mesmo.
Plínio percebeu a semelhança da situação ocorrida com seu sonho. Levantou e foi trabalhar, deixando a menina pra trás. Ficou pensando. Pensou muito. E chegou a conclusão.
O aviso da mudança chega de formas inesperadas. O aviso de que você precisa de mudança chega de um jeito incerto. Temos de aceitar a situação de que somos vulneráveis a todo instante a milhares de vetores inconstantes. Não dá pra prever o que vai acontecer com a gente, quando vamos ganhar ou quando vamos perder. Só se sabe que todo dia temos que melhorar, não importa o que seja.
E Plínio sabe muito bem disso agora... Mas não é todo dia que um sonho se concretiza, mas é todo dia que os sinais da mudança te atingem como feixes de luz: diretamente e incessantemente.