9 de set de 2012

O último dia brilhante vivido

Lubbert não parava de pensar. Imaginava e flutuava em sua própria mente, procurando um sentido. Não entendia quando as pessoas diziam que era para fazer cada minuto da sua vida contar. Será que já não tinha muita gente contando o tempo, muitos relógios marcando as horas e memórias ocupando espaço?
"Viva como se fosse seu último dia", ele ouviu na televisão, em uma música, leu em um livro. Todos os meios de comunicação pediam para que a vida fosse vivida. Então ele levantou da cama e resolveu viver.
_ Oi Helena!
_Ér, é... oi... - ela respondeu meio surpresa, já que ele não costumava ser muito sociável.
_ Hoje eu vou viver!
_ Por que? Você estava morto?
_ Morto de espírito. Mas hoje resolvi dar vida a ele!
_ Que ótimo!
_ Por onde você acha que eu devia começar Helena?
Lubbert era um cara que chamava atenção. Não por sua personalidade, que afastava pessoas e sim por sua beleza iluminadora. Helena sentia uma atração imensa por ele e agora que tinha resolvido ser encantador com ela, estava com o coração na mão.
_ Não vai me responder não ein? - disse Lubbert exaltando-se.
Helena agarrou o pescoço de Lubbert e deu um beijo nele. Ele a empurrou e se afastou.
_ Desculpa, desculpa, eu não resisti - implorou Helena.
_ Eu percebi - arriscou ríspidamente - mas acho que não é por aí que eu preciso começar. E muito menos com você.
Helena, que tinha o coração na mão, agora tinha o mesmo quebrado. Ela saiu correndo pra sua casa e bateu a porta. Lubbert respirou fundo e resolveu pedir desculpas, pois estava querendo fazer cada momento contar. Bateu na porta da casa dela, mas quem atendeu foi um garoto, com seus 19 anos.
_ Posso te ajudar?
_ Eu queria falar... com a Helena - disse tendo uma sensação estranha.
_ Sou o irmão dela. Se quiser vai ter que falar comigo.
_ Diga a ela que pedi desculpas por ser grosso. É que estou vivendo como se fosse o último dia.
_ E ser grosso é um parte disso?
_ Na verdade não, é um pedaço da minha chata personalidade.
O garoto viu um lampejo de tristeza nos olhos de Lubbert e disse:
_ Qual seu nome?
_ Você não sabe meu nome, mesmo eu sendo seu vizinho?
_ Não, eu só venho pra cá nos finais de semana.
_ Prazer, Lubbert.
_ O meu nome é Nico. Entra, vamos conversar, tô vendo que você tá precisando disso.
As horas seguintes foram cheias de conversas sobre a vida dos dois, e depois de pegar um pouco de intimidade com Nico, Lubbert bateu na porta do quarto de Helena e pediu desculpas. Ofereceu um abraço e ela aceitou. Deu um sorriso e fechou a porta do quarto de novo.
_ Ela é sempre impulsiva? - curiosamente perguntou ao irmão dela.
_ Bastante, com 14 anos é típico agir assim.
_ Nossa, olhe a hora! Já tem 3 horas que tô aqui só conversando. E hoje que tinha prometido fazer cada momento contar. Preciso fazer algo.
_ Você já fez.
_ Como assim Nico?
_ Você foi importante pra mim hoje a tarde. Fez o momento contar. A sua memória não conta as horas, só registra o evento. Então o dia de hoje vai ficar marcado na sua cabeça, assim como vai ficar na minha.
_ Não acredito que "viver como se fosse o último dia" seja fazendo o que fiz hoje. Preciso me esforçar mais. - refletia Lubbert.
Nico deu um sorriso e abraçou Lubbert. Primeiro foi um choque pra Lubbert receber um abraço de outro homem, mas depois ele relaxou e devolveu o abraço.
_ Pronto, fiz um momento contar - disse Nico rindo.
Lubbert agradeceu pela tarde e foi caminhando nas nuvens em direção a sua casa. Parecia que tinha quebrado uma barreira da sua personalidade. Nunca tinha passado uma tarde só conversando com alguém desconhecido. E o abraço espontâneo e amigável foi um evento inédito. Ele aprendeu que os momentos que contam são aqueles simples. A sua memória lembrará daquela frase dita sem querer, daquele elogio que saiu de supetão, daquele beijo que foi dado de surpresa. A sua cabeça vai guardar cada minuto e quando você quebrar uma barreira vai ser como um novo capitulo. Vai registrar cada abraço recíproco inconscientemente.
Tudo depende de você. Levante da sua cama e vá destruir os muros que deixam o caminho da felicidade mais difícil. Você verá que "viver como se fosse o último dia" é parte do nosso dia a dia. É acordar e sorrir. É acordar e viver.