2 de abr de 2012

Baú da Alma

Eu vi um garotinho sozinho no seu canto, com as mãos na terra. Ele parecia tão calmo e tão triste. Resolvi que ia falar com ele e foi o que eu fiz. Mas eu realmente não esperava o que aconteceu.- Oi menininho, tudo bem com você?
Ele me olhou e eu vi a tristeza.
- Você está triste porquê?
Ele olhou pra terra e continuou brincando com ela.
- Você não tem amiguinhos?
- Dá pra você parar de me chamar no diminutivo?
As palavras foram como um baque. De repente parecia que estava falando com um adulto.
- Tá bom... Mas você não tem amigos?
- Não te interessa.
Eu senti uma obrigação de me afastar. Virei e continuei minha rotina, mas foi fácil perceber que o pequeno garotinho me seguia. Então resolvi alterar o caminho e passar pelo parque da cidade. Quando cheguei lá parei bem no centro e disse:
- Eu já te vi, pode parar de me espionar.
Com um pulo, o serelepe menino apareceu.
- Eu não estava espionando, eu só quero te mostrar uma coisa.
Fiz cara de quem não estava entendendo nada.
- Vem - disse o menino.
Segui ele até o quintal de uma casa. Ele pegou uma pá e começou a cavar um lugar que parecia recentemente alterado. Cavou até achar uma caixa de madeira com um escrito que dizia "Alma".
- Aqui está minha alma moço.
É claro que olhei espantado, mas depois peguei e abri. Era um papel rabiscado com um desenho do pequeno garotinho.
- E... por que você guardou sua alma enterrada?
- Eu não quero mais ela.
- Porquê?
- Você faz muitas perguntas.
Dei uma risadinha e olhei o papel mais uma vez.
- Eu não quero minha alma porque ela só me causa dor. Dizem que são as almas que amam quando a gente se apaixona, que as almas que tem amor infinito.
- E quem está ferindo sua alma? - perguntei curioso.
Ele abaixou a cabeça e fez um movimento giratório com os pés.
- É o meu pai. Minha mãe também, mas meu pai mais.
- E o que eles fizeram?
- Eles não amam minha alma.
- Claro que eles amam!
- Não. Eles falaram pra eu esquecer esse assuntos de almas que amam, então eu desenhei ela e falei que ia enterrar, mas eu sei que ela continua comigo.
Eu ri e abracei o menino. Então falei:
- A gente não se livra da alma tão fácil. Acho que é bem difícil.
- Eu não queria me livrar dela. Eu só fingi pra meus pais acharem que ela tinha ido pra sempre.
- A alma não vai a lugar nenhum enquanto existirem sentimentos. Os sentimentos alimentam a alma. E seus pais provavelmente sabem que ela ainda está com você.
- Eles não sabem. Eu fugi de casa depois que eu enterrei minha alma no quintal da minha vó. Eu só deixei um bilhete: "Me encontrarão aonde minha alma estiver"
Eu olhei assustado. Esfreguei os olhos e não havia mais ninguém lá e eu estava no quintal da casa da minha avó, na frente da caixa que tinha a minha alma, que eu havia guardado a tantos anos atrás. Esqueci minha família, e fui pra vida. Aprendi muita coisa nos lugares onde estive, mas só agora entendi que a alma não tem um tempo definido. Ela faz o tempo. O passado pode se tornar presente e o futuro se tornar passado. 
E a alma sempre quer sentir algo... Da tristeza à alegria, da dor ao prazer. E pra isso ela faz seu tempo.
Eu aprendi que nunca posso tentar deixar minha alma pelo caminho. Ela vai me seguir. 
Eu vou segui-la.