10 de jan de 2012

Algemas

Estou preso aqui faz uma semana. Nos primeiros dias tinha comida e água. Agora só tenho água. Chegou um companheiro hoje pra mim, só que ele não fala nada. Isso me dá medo.
- Ei.
Ele não respondeu.
- Meu nome é Anna. Você também foi capturado?
Ainda não obtive resposta.
- Eles nos dão água, mas não tem comida. A água está ali do lado, se você quiser.
Ele olhou pra mim e virou a cara de novo. E o dia foi assim, com nós dois calados.
No outro dia de manhã nos colocaram uma algema esquisita e disseram: "Quanto mais perto, mais cedo".
- Como assim "Quanto mais perto mais cedo"?
Nenhuma resposta.
- Ah, chega né! Estamos presos nesse lugar escuro e não tem nada além de água, agora você vai ser frio como gelo comigo o resto do tempo que eu ficar aqui?
- Eu só falo o que é extremamente necessário. Quanto menos se fala, menos sede.
Ah, que bom. Sou raptada e de companhia ganho um quase mudo que quer me dar lições.
- Falo isso pro seu bem Anna. Agora que estamos amarrados juntos, temos que descobrir um jeito de nos soltarmos.
- Acho que temos que ficar perto, quanto mais perto melhor.
Passou-se mais uma semana e ainda não tínhamos descoberto uma maneira de nos libertarmos. O grande fato era que a porta estava aberta, e podíamos sair, mas estávamos amarrados um ao outro e na parede. Nessa semana nos conhecemos mais, com poucas conversas, mas confesso que me senti atraída por ele.
- Você já namorou? - perguntei.
Nenhuma resposta como usualmente.
- Eu nunca namorei, nenhum cara gosta de ficar comigo.
- Eu gosto.
Fiquei encabulada mas foi o suficiente pra eu ficar muda.
- Se eu te beijar, você vai ficar incomodado?
Ele fez uma cara de tensão, desespero.
- Deixa pra lá.
Passou-se mais uma semana e estávamos cada vez mais próximos. Eu "tentei" alguns beijos, mas fiquei com medo de magoá-lo. O que realmente aconteceu é que eu tinha uma imensa vontade, mas ficava com medo.
- Estou preparado, pode me beijar - ele finalmente disse no fim da semana.
Na hora que estava me inclinando, alguém chegou a porta, tirou ele das algemas e o arrastou para um canto. Lá ele foi socado, chutado e no fim morto. Tudo na minha frente.
Ás vezes temos tantas oportunidades e ficamos com tanto medo que a perdemos. Talvez seja melhor arriscar. Quem não arrisca não petisca. Por que esse ditado funciona tão bem? Droga. É melhor amarmos as pessoas com risco de machucá-las do que amar de longe, só se machucando.
E isso foi a última coisa que pensei.