9 de nov de 2011

Garotinha do Mar

Eu olho para baixo e vejo o mar. Olho para trás e vejo meu carro e mais nada. Se eu for me jogar, tem que ser agora.
- Ei.
Uma garotinha estava me olhando com um sorriso enorme.
- Oi - respondi assustado.
- Você estava aqui olhando o mar? Ele não é tão bonito?
Respirei fundo, olhei nos olhos da garotinha e depois para a imensidão do mar.
- É, o mar é bonito menina.
- Sabia que ele só é bonito porque cada coisa funciona no seu lugar? O céu tem que estar azul pro mar ficar lindo assim, mas as nuvens não podem estar nele. Já as nuvens, para não estar bloqueando o céu para o mar, precisam ser empurradas pelo vento, para ficarem se movendo e fazendo vários formatos.
Parei pra pensar um pouco. Aonde ela queria chegar?
- Sabia que você também é importante? Imagine só se o vento resolvesse que ia parar que loucura ia ser! Ia ser a mesma coisa se você parasse. Tudo em sua volta ia perder sua funcionalidade e mudar.
Ela me atingiu.
- Você ia se jogar no mar não ia moço?
Eu não respondi.
- Você tem família?
- Tenho.
- Eu não - disse a menininha - Você tem casa?
- Tenho - respondi.
- Eu não.
Ficamos em silêncio olhando pro mar por um tempo.
- Moço... Se você se jogasse muita coisa ia mudar. Porque você não deixa eu me jogar no seu lugar? Vou mudar muito menos que você.
Me assustei. Nem lembrava mais porque queria me jogar. Fechei os olhos e respirei fundo. Ouvi barulho de algo caindo na água. Abri os olhos muito rápido e a garotinha não estava mais ao meu lado. Me virei e voltei correndo pro carro, balançando a cabeça com medo do que eu podia ter feito apenas pelo fato de estar ali. Entrei no carro e respirei fundo. Pensei em tudo o que tinha deixado. Vi que estava fazendo besteira. Acelerei o carro e vi pelo retrovisor a menininha no meio das árvores, olhando pro mar.
Graças a Deus, garotinha do mar, você estava aí.