12 de set de 2011

A felicidade se encontra no desespero.


Estava sentado num bar de esquina, aqueles que tem shows de desconhecidos na sexta. As pessoas costumam procurar refúgio nos lugares mais estranhos quando estão ruins. Se alguém pergunta "tudo bem", mesmo estando no fundo do poço, você responde que está ótimo. E nesses dias sempre acontece alguma coisa.
Pedi mais um drink e junto veio um sorriso. Mas os sorrisos de estranhos parecem ser sempre os mesmos quando você só quer um sorriso de uma certa pessoa.
- Aceita mais um drink moça bonita?
- Aceito sim. E eu não sou bonita, pode parar com elogios falsos.
Sim, eu dizia o que pensava e isso era bom e ruim.
- O que aconteceu com você pra estar com a língua tão áspera assim?
- Nada que seja da sua conta, estou bem se for isso o que você quis perguntar.
- Sou todo ouvidos.
Parece que aquelas palavras abriram portas de saída para meu desespero, uma companhia pra minha solidão. E eu comecei a contar sobre meu pequeno naufrágio na ilha do medo.
- Eu sei que você é um estranho, mas eu preciso dar liberdade a minha angústia.
- Nossa, que mulher poética.
Eu nos meus quase cinquenta anos adorava metáforas e frases bem elaboradas.
- Obrigado. Posso começar a contar coisas que seus ouvidos não querem ouvir?
- Vá em frente.
- Começou hoje cedo quando meu ex-marido me ligou dizendo coisas terríveis. Jogando coisas na minha cara que eu fiz a muito tempo atrás e já estou arrependida. E ele estava bêbado, logo entendi isso. Encontrei ele num apartamento que ele vivia, jogado na cama como uma gata mimada.
O menino não devia ter nem a maioridade ainda e estava contando sobre minha vida para ele. Acho que minha loucura já estava no limite.
- Então ele acordou e me contou sobre nosso filho, que ele criou enquanto eu cuidava da minha carreira.
- Você largou seu filho para melhorar sua carreira?
- Eu tive ele num momento em que não podia arcar com as consequências, mas o pai podia. Então ele se mudou para outro país. Meu marido voltou, mas meu filho continua lá com os avós.
- Nunca viu seu filho crescido?
- Só por fotos.
Um silêncio momentâneo. Continuei a história.
- Ele me contou tudo o que tinha acontecido com meu filho, como ele tinha entrado no mundo das drogas...
Comecei a chorar. Droga, não era pra me mostrar tão fraca na frente daquele moleque. Suguei as lágrimas.
- E hoje é meu aniversário. Olha que presente eu ganhei: um filho nas drogas e um ex-marido que joga tudo na minha cara.
O menino estava sorrindo. A música ficou mais alegre.
- E agora estou aqui nesse bar, tomando drinks e contando minha vida pra um garoto que nem deve ter quinze anos.
O sorriso do menino se alargou. Estranho. De repente mãos taparam meus olhos e braços me ergueram da cadeira. Parecia um sequestro. Comecei a gritar. Colocaram a mão na minha boca.
Me levaram pra algum lugar perto, acho que não sai do bar. Senti o cheiro dos braços  que me envolviam. Eram do meu ex-marido. As mãos eram muitos geladas, e não eram dele.
- Parabéns pra você... Nesta data querida...
Consegui afastar os braços e as mãos. Vi meu marido e um menino. O bar estava cheio de bolas e um incrível bolo.
- Prazer mãe, seu filho Josh.
Acho que nunca mais duvido que tem algo bom reservado pra mim, mesmo que a vida diga o contrário. Depois da festa meu marido me contou que havia contado uma mentira para mim, dizendo que meu fiho entrara nas drogas e que ele estava em outro país. O menino do bar era o melhor amigo de Josh e eles tinham armado toda essa festa. No meio de bolo tinha uma aliança. Meu marido queria minha mão e minha vida de volta. É claro que aceitei.
Descobri depois de hoje que a felicidade pode ser encontrada no desespero de maneiras surpreendentes. Se você está triste, eu sei que algo lá dentro diz que tudo vai mudar, mas outra diz loucamente que tudo está perdido. Mas nada é assim. A vida nos joga pra lá e pra cá e só sobram os resistentes. E os resistentes tem que contar histórias.