4 de set de 2011

Cabides

Estou no carro com três amigos. Estou me sentindo pouco mal. Mas não mal de estar com dores no estômago e coisas desse tipo. Me sinto mal no grupo. Parece que eu não pertenço a esse mundo.

- Gente, vocês podem parar o carro pra mim? - pergunto.
- Pra que Feich? Quer ir aonde?
- Não estou me sentindo bem.
- Quer vomitar?
- Não, só quero andar um pouco ao ar livre. Podem ir vocês.
Eles acharam um pouco estranho porque não sou de interferir nas coisas. Mas como já me achavam estranho, me deixaram numa praça. Estava bastante frio. Esperei não ouvir barulho de carro para começar minha caminhada. Andei em volta do chafariz com a mente vazia, procurando algum sentido na vida. É obvio que não achei.
- Ei.
Tomei um susto com a voz que parecia vir do além.
- É, estou falando com você.
- Comigo?
- É! Você de blusa escura e calça jeans.
Enquanto ela falava comigo, eu procurava só com a cabeça, sem sair do lugar.
- Você quer gritar, quer explodir, quer chorar, quer morrer e não sabe porque?
Eu fiquei mudo porque era exatamente o que estava sentindo. De quem era aquela voz feminina intrigante?
- É, é mais ou menos isso o que sinto - eu respondi.
- Você precisa experimentar.
- Experimentar?
- Experimentar o amor.
- Amor?
- Sim, você parece uma pessoa que nunca amou verdadeiramente.
- Eu amo sim.
A voz calou por um tempo. Cansei de esperar e comecei a andar.
- Desiste fácil.
Começou a me irritar. Quando futucam as feridas elas sangram.
- O que você quer de mim? - perguntei perdendo a paciência.
- Eu só quero seu bem. E você precisa de mim. Mais do que eu preciso.
- Ah, então você quer ouvir o que eu sinto? Pra que? Só se for pra espalhar que eu estive aqui e fiquei conversando com você igual um idiota e falando coisas que você nem queria ouvir,
- Continue.
- Estou cansado já. As pessoas não me veem como divertido. Me olham como se eu fosse um objeto de apoio. Sou como um cabide de casacos. Fico escondido e as pessoas só me usam quando precisam. Ficam pendurando seus problemas em mim e esquecem que eu também tenho os meus. Ninguém quer ser meu cabide, então eu tenho que sustentar meu peso em dobro e mais todos os casacos que jogam em cima de mim.
A voz estava calada depois desse meu discurso quilométrico sobre meus sentimentos. Sabia que ela ia me deixar falando sozinho. Comecei a andar. Dei mais voltas no chafariz e resolvi sair da praça escura e fria.
- Não vai me agradecer?
Era a voz de novo. Meu Deus. Ela não vai me deixar em paz?
- Agradecer?
- Sim, fui seu cabide hoje a noite.
- Obrigado. Eu só queria ser um cabide de madeira, não um de plástico.
- Os cabides não são bons só porque são de madeira. Todos tem seus defeitos. O de plástico pode ser fraco, mas é o preferido pra pendurar as coisas. Os de madeira tem farpas. Eles furam, e deixam você incomodado.
- Cada vantagem traz uma desvantagem.
- Chega de papo furado. Você escolhe: quer ser um cabide de plástico ou de madeira? Ninguém é perfeito. Todo mundo tem defeitos. E ninguém agrada a todo mundo.
Eu fiquei sem falar nada e continuei andando. Pensei: "Cabides podem ser divertidos. É só saber usá-los. O problema é como. Ah, e cabides não amam". A voz gritou bem distante:
- Um cabide ama. Ama servir de apoio e faz da melhor maneira. É esse o primeiro amor que você tem que encontrar.