10 de mai de 2011

Caos, Sol, Pânico

Quem poderia imaginar. Eu, grávida. Me perguntam como, mas eu não sei, fui pega pelo momento. Estou num momento que parece que o mundo desabou na minha cabeça entrou pela goela e vai crescendo na minha barriga. É uma sensação estranha. Pra resumir o que estou passando: fui estuprada por um mascarado.
Era de noite e eu estava voltando do meu curso, como fazia toda a noite. Parei pra ver uma vitrine de sapatos. Havia uma construção logo em frente. Quando passei pela frente da construção, mãos surgiram do escuro e me pegaram. Eu lutei contra as mãos mas elas eram fortes. Colocaram uma venda no meu olho, amarraram minhas mãos, tiraram minha roupa. "Pronto" pensei comigo mesma, "Agora eu morro". Mas logo percebi que o estuprador não queria me matar. Por incrível que pareça ele tentava ser carinhoso (porque eu não podia fazer nada, também).
Depois do estupro, me colocaram deitada na frente do estacionamento, já era tarde da noite. Me levantei e retirei as vendas, minhas mãos já estavam livres. Apalpei meu corpo. Estava com medo das sombras, das luzes, de mim mesma. Bem, foi assim que aconteceu e como me senti.
Hoje estou frequentando o psicólogo. Meu melhor amigo, Apolo, está comigo. O sorriso dele me deixa calma. Ele fica muito comigo durante essa fase de desespero. Essa é minha primeira sessão no médico. Estou com medo.
- Vamos Eris, tente relaxar, eu estou aqui - disse Apolo.
- Estou tentando.
O médico entrou pela porta. A sessão foi tranquila. E foi assim até o nascimento do bebê.
Quando o neném nasceu, era um menino, como eu já tinha visto no ultrassom. Tinha meus olhos cinzentos e os cabelos castanhos. Como não pude saber quem era o pai, imaginei o melhor. Ele era lindo. Apolo sugeriu um nome que gostei muito: Deimos.
- É um nome da mitologia grega. Significa pânico. - sorriu Apolo dizendo essas palavras.
Eu sorri de volta. Ele sabia como eu tinha me sentido. Era o nome perfeito.
A polícia tinha achado dois suspeitos. Um investigador me visitava para tirar informações de vez em quando. Um dia ele pediu que eu o acompanhasse e deixei Deimos na casa de Apolo, que era como um pai. Um policial ia questionar Apolo enquanto o investigador conversava comigo. O investigador pediu para eu esperar enquanto ele ia buscar sua prancheta no carro. Foi então que ouvi o policial acusando Apolo.
- Aonde você estava no dia em que ela foi estuprada?
- Em casa - respondeu Apolo perplexo e nervoso.
- Mentiroso! Muitas testemunhas te viram entrando no estacionamento mais cedo!
Minha mente bloqueou. Os cabelos de Deimos eram iguais ao de Apolo. O pequeno sorriso era exatamente o mesmo. Mas não podia ser. Apolo é meu melhor amigo. Nunca me faria passar por todo esse sofrimento.
O teste de DNA chegou um dia depois. Apolo era o pai de Deimos. Milhares de perguntas voavam em minha cabeça na velocidade de carros de corrida.
Uma carta preencheu minhas dúvidas. A carta estava no meu livro de biologia que tinha esquecido de levar no dia que Apolo me estuprou.
" Eris
Acho que você já sabe. Eu te amo. Quero ser direto, não aguento mais ficar sofrendo. Somos velhos o suficientes pra ter um filho. Eu sei que você quer um muito. Mas você não me ama, eu sei. Então terei que apelar pro pior. Espere e verá.
Apolo "
Chorei. Não tinha mais o que fazer. Deimos começou a chorar também. Eu olhava pra ele e via Apolo. Não conseguia evitar a lembrança. Agora Apolo estava na cadeia, pagando pelo que fez. Mas um sentimento de culpa me corroia. Fui visitar Apolo.
- Éris, eu juro, não fui eu!
- Como não foi você que fez isso se o exame de DNA confirmou?!
- Eu tenho uma hipótese.
- Fala logo então! - gritei.
Ele engoliu em seco.
- Meu irmão. Ele sabia que eu te amava. Ele sabia onde te encontrar porque eu não parava de falar em você. Ele saiu de casa naquele dia. Não o vejo desde aquele dia. Não quis te contar porque você já estava com um problemão. - Apolo desabou em lágrimas.
- Mas o exame de DNA?
- Você se lembra que meu irmão trabalha na AJO Technologies? Ele tem acesso a todas as salas do local. Ele é vigia. Pode muito bem ter trocado a amostra de DNA do bebê.
Engoli em seco.
Um mês depois tudo foi resolvido. E sim, o irmão de Apolo havia me engravidado. Minha cabeça estava a mil. Nesse tempo realmente me apaixonei por Apolo. Minha vida estava linda mesmo bagunçada. Era tão legal ver Deimos e seu "pai" sorrindo juntos com o pôr-do-sol. Eu me sentia feliz. Não sentia raiva.
Percebi que a vida faz reviravoltas na nossa vida pra chegar a um só lugar: a felicidade. Mas a gente passa por muita coisa antes de ser feliz. E a felicidade não fica com você se você não cuidar dela. Ela é como um bebê. Temos que alimentar pra vê-la sorrindo, arrotando...
Pude achar felicidade no pânico, ver o sorriso lindo do sol, diante do meu imenso caos.