23 de abr de 2011

Tarefa interna


 E o bicho enfiou o dedo na cara do menino.
- Você vai perceber , mais cedo ou mais tarde.
- O que eu vou perceber? - respondeu medrosamente.
- Krow, Krow, Krow. Você vai tomar uma bofetada na cara, quando você menos espera - gritou o monstro.

O menino de olhinhos amarelos engoliu seco. Porque isso tinha que acontecer com ele? A criatura que olhava para ele tinha um olho no lugar do nariz, um olho no lugar do queixo, a boca em uma das mãos e os ouvidos nas costas. Era cascudo, com um chifre, olhos cinzas e voz rouca. Além de ser imenso, tinha pernas finas.
- Você me escutou Krow?
- Escutei...
- É bom que tenha me escutado. Você tem 1 dia pra executar a tarefa que te concedi.
O bicho caminhou para a parede encostou a mão com a boca nela e foi sugado.
Krow respirava forte e rápido em cima da sua cama. O dia estava amanhecendo. A coisa tinha aparecido e acordado ele. Krow levantou e foi até a cozinha. Sua família tinha viajado. Mas que missão é essa que a "coisa" tinha dado a ele? Foi caminhar para pensar. Passou próximo ao cemitério e viu que estava ocorrendo um funeral. Paralisou e foi até lá, sentiu que devia. Com as mãos no bolso de sua blusa de frio foi andando pacificamente em direção ao aglomerado. Mas no meio de seu percurso, todos foram voltando, o funeral tinha terminado. Só sobrou uma menina, ajoelhada na frente do túmulo. Krow se encaminhou a ela, era isso que precisava fazer.
- Perder alguém é sempre difícil...
A menina olhou para Krow. Ele se assustou. Era Lysdria, a garota da faculdade que sempre ficava calada, que ninguém nunca ouvia a voz. Nunca havia reparado nela.
- Não perdi ninguém. - respondeu Lysdria secamente.
- Então o que você tá fazendo aqui?
- Cumprindo minha missão.
Krow se assustou novamente.
- Missão? E que tipo de missão é essa?
- Todo mundo tem uma missão. Só que é difícil descobrir como fazer.
- E qual é a sua missão, Lysdria?
- Você gosta de perguntar. Só olha pra frente e você vai descobrir.
Krow olhou adiante e viu pequenas sementes e várias flores.
- As pessoas querem que brotem flores só colocando elas em cima do túmulo. Então eu percebi que tenho que plantar as sementes de flores nos túmulos, onde as pessoas vem molhar com as lágrimas de vez em quando.
Ele olhou pra ela e sorriu. Foi a primeira vez que Krow viu Lysdria retribuir um sorriso.
- Assim como as flores, que nascem, crescem, ficam lindas, que são arrancadas as pétalas e depois morrem, somos nós - disse Lysdria.
- E você acha que sou que tipo de flor?
- Não posso dizer. As pessoas são únicas. Podemos juntar elas num grupo, mas sempre existem algumas características únicas.
Krow ajudou ela a terminar de plantar algumas sementes e foi pra casa. Tinha esquecido da tarefa que o monstro concedera. Sentou no sofa, comeu seu almoço e cochilou. Quando acordou viu na televisão que havia uma exposição no parque municipal. E ele foi. A caminho ele lembrou de sua tarefa.
- Ei menino! Cuidado!
Krow tropeçou no saco de lixo que fora deixado por alguém.
- Eu tentei avisar, mas você foi em frente - disse um velinho sentado numa casa ao lado.
- Ah, obrigado.
Krow percebeu que o senhor segurava uma caixa vermelha com a tampa preta listrada.
- É, não querendo ser pra frente, o que o senhor guarda nessa caixa?
- Ah! Minha caixa... Você realmente quer saber o que tem aqui?
- Sim, eu quero.
O homem abriu a caixa e pegou uma porçao de fotos. Selecionou uma que lhe parecia especial.
- Essa é minha neta.
Krow viu Lysdria na foto.
- Você é o avô de Lysdria? - surpreendeu-se.
- Sim, eu sou. Ou era, não sei mais.
- Como assim era?
- É que nós brigamos muito ultimamente e ela não me visita ou me vê tem anos... queria muito que ela soubesse que estou arrependido do que fiz.
- Acho que posso te ajudar.
Krow saiu correndo e foi até ao cemitério e viu Lysdria abaixada em outro túmulo.
- Lysdria! - gritou Krow.
A menina o olhou desconfiada e assustada. Ele chegou ofegante próximo a ela.
- Seu... avó... quer... falar.... com... você.
- Meu avô? - disse ela virando-se para tapar o buraco que havia feito.
- É! Acabei de encontrar ele... E... Ah! Vem aqui.
Ele levou ela até ao velhinho que continuava sentado na cadeira com sua caixa na mão. Ele disse a Lysdria lindas palavras de arrependimento que levaram ela as lágrimas. Os dois se abraçaram e Krow sentiu que sua tarefa estava cumprida.
De noite, ele esperou pela criatura, mas ela não apareceu. Caiu no sono.
- Krow! - disse uma voz rouca.
Ele levantou da cama e viu a criatura, mas já era dia. O bicho não estava tão feio quanto antes, os olhos tinham se acertado no lugar, mas a boca continuava na mão e os ouvidos nas costas.
- Completei minha missão? Fiz tudo certo?
- Krow. Aquela não era sua missão. Foi simplesmente um ato que você fez. Foi tão belo que que lhe pareceu que foi uma missão. Mas a verdadeira tarefa está em mudar aqui dentro - disse o bicho apontando para o coração de Krow.
- Meu coração?
- É. Foi por isso que meus olhos se acertaram. Só porque seu coração mudou. Mas sua missão continua até que eu fique totalmente igual a você.
- Igual a mim?
- Sim Krow. Eu sou o seu eu interno. Como você realmente é. E eu só vou mudar quando você mudar. Tem que partir de você. Se você não quiser, ninguém vai me fazer ficar tão bonito quanto você aparenta ser.
Krow estava sem palavras.
- Pois é... E aí fica sua missão. Não vou aparecer mais pra você. Fica por sua conta ver se você é bonito por dentro.