22 de abr de 2011

Felicimor


Cassandra nasceu numa manhã clara. Seus pais logo notaram uma mancha bem escura em seu peito esquero, justamente onde ficava o coração. Toda vez que encostavam na mancha, uma sensação inesquecível passava pelo corpo. Nos dois dias seguintes os pais de Cassandra sentiram as piores coisas que já haviam sentido na vida. As lembraças passadas e as dores da infância voltavam e socavam como se eles fossem um saco de pancadas. Acabaram se suicidando e deixando Cassandra  para os cuidos de sua avó, mas antes deixaram um bilhete avisando para não encostar na mancha.

Cassandra cresceu e se desenvolveu. Tornou-se uma mulher incrívelmente bonita. Aos 21 anos, começaram a aparecer namorados e ela perdeu sua virgindade com um ficante que nem gostava dela. E ele também se matou. Acusada de matar o menino, foi ao júri. Conseguindo provar sua inocência, resolveu conversar com sua avó, que revelou coisas que ela mesma não sabia.
- Cassandrinha, querida. Antes de seus pais morrerem, deixaram um bilhete me informando sobre essa sua mancha, que você tem no peito esquerdo, justamente em cima do seu coração - disse a avó preocupada.
- E o que tem ela? - indagou Cassandra.
- Ela traz a maior felicidade no momento em que alguém encosta nela e a maior infelicidade quando nos afastamos. E é tanta infelicidade que acabamos por nos matar. - finalizou.
Cassandra estava muda. Alguns dias depois, resolveu ir a um especialista em manchas. Chegando lá explicou o que sua vó havia dito. O médico abriu um largo sorriso.
- Essa sua mancha.
- O que tem ela?
- É a mancha do saber.
- Ahn?
- É. A mancha que só dá felicidade eterna a quem encostar nela com sabedoria.
- E que sabedoria é essa?
- Ninguém descobriu até hoje, querida.
Cassandra saiu surpresa e desapontada. E ela virou notícia nos jornais. " A mancha que traz a felicidade eterna". Logo ela estava cercada de câmeras e gravadores. Loucos tentavam da maneira mais fácil encostar em sua mancha. Quando conseguiam, também apareciam no jornal, mas por que haviam morrido.
Cassandra estava passeando a noite e encontrou uma criança jogada no meio do lixo. A menina estava dormindo, mas mesmo no seu sono, exalava desgraça. Cassandra foi ao restaurante mais próximo e comprou um lanche para dar a menina.
- Oi? Alô? Boa noite! - disse Cassandra enquanto cutucava a criança para acordá-la.
- Ah? Quem é você? Me deixa em paz, eu só tenho aqui pra dormir.
- Você não quer comer?
Os olhos da menina fitaram o lanche com prazer. Ela estendeu as mãos e Cassandra deu o lanche. A criança comia deliciosamente.
- Você não tem onde viver? Não tem pais?
- Meu pais morreram. Eles me jogaram no rio, não gostavam de mim. Eu fui criada pela rua e pelas tias que me davam comida. Quando eles me jogaram no rio eu já era grande demais pra morrer afogada.
A menina tinha terminado de comer.
- Você tem mais moça?
- Vem cá.
Cassandra pegou a menina e a levou em casa. Lá deu uma refeição incrível para a menina. Ela sentiu o local da mancha pulsar. Sentia que era hora de alguém tocá-la.
- É... como é seu nome?
- Não tenho nome tia. Eles só me chamam de Pitu.
- É... Pitu. Você pode encostar nessa mancha aqui?
- Pra que tia? É só uma manchinha.
- Você vai ver que é diferente!
A menina encostou na mancha. Depois Pitu olhou pra Cassandra e sorriu.
- Tia, você não sabe que você não pode dar felicidade a quem já tá cheia? Você me deu comida, mas o principal prato de hoje foi o amor. Eu vi nos seus olhos. Nunca senti tanto amor assim.
- Então você não sentiu nada quando encostou  na mancha, só amor?
- Senti sim tia. Mas foi você que sentiu mais. Eu consegui sentir seu coração!
- E onde você aprendeu isso tudo?
- As ruas me ensinaram que não tem amor no coração das pessoas. Elas passam tão depressa... E quando alguém para, é porque tem amor ali dentro.
Pitu abraçou Cassandra de um jeito incrível.
- Tia... obrigado por tudo. E a sua mancha... a pessoa só vai ter felicidade eterna se ela conhecer seu coração primeiro. E se você quiser que ela sinta.
A partir daquele dia, Pitu começou a morar com Cassandra e os holofotes logo esqueceram dela. Mas a última declaração em público que Cassandra disse, foi:
" No dia em que vocês acharem o amor no coração, não vai precisar de mancha ou de nada. O amor já é feliz por si mesmo. O amor nos dá a felicidade eterna."