11 de abr de 2011

Ondulações

Nicholas era uma garoto que gostava da natureza. Sentia-se ligado a ela de uma forma estranha. Em uma tarde dourada e iluminada pelo sol tapado pelas nuvens, Nicholas resolver andar por uma reserva afastada na cidade. Chegando lá com sua bicicleta, foi pedalando entre as árvores cantarolando "Anna Sun". Balançava a cabeça ao ritmo da música no fone de ouvido. Em um momento de empolgação ele soltou as mãos do guidão e caiu. E parou em um lugar que nunca tinha visto.

Nicholas se limpou, pôs-se de pé e olhou pra frente. Viu um buraco, como uma caverna, no meio de um pequeno morro, entrelaçado por plantas selvagens. O buraco estava fechado com uma grade. Curioso, ele forçou a grade que logo se estatelou no chão. Nicholas olhou para dentro da caverna escura. Pegou seu celular e apertou um botão, para iluminar o lugar. Parecia um buraco infinito. Olhou a hora e viu que poderia se arriscar. Esfregou as mãos e entrou.
A umidade do lugar parecia cair sobre a cabeça dele. Era audível o som de gotas caindo. A luz do celular era fraca mas era possível ver o chão. Depois de alguns passos Nicholas achou um cordão de ouro com um pingente interessante. Era a forma de uma chave tortuosa. Logo depois de tentar avançar ele esbarrou em uma porta. Olhou para sua mão e arriscou a chave naquela porta velha. O dourado da tarde não era mais visível. Mas parecia haver uma luz atrás da porta. Nicholas apressou-se e entrou pela porta. O lugar parecia um cômodo abandonado. Mas havia alguém deitado numa cama esfarrapada num canto. Aproximando-se do ser, Nicholas pôs a mão e viu olhos se abrindo.
- Quem é você? - disse uma voz feminina horrorizada.

- É... Sou Nicholas Heartgun, da cidade.
- Era pra você supostamente não me achar - susurrou a voz raivosamente.
- Ahn?
- Ninguém pode me ver no estado que estou.
- Mas porque? Acho que não há nada demais com você.
A garota tirou os farrapos de cima de seu rosto e ficou sentada na cama. A visão que Nicholas tinha o aterrorizava internamente, mas ele não podia demonstrar horror a ela.
- É isso? - gemeu ele.
- É claro que é isso. E pode parar de disfarçar, eu consigo ver através de corpos, posso ver sentimentos pairando no ar. É por isso que não vou pra fora, só vou lá pra conseguir comida.
- Você vê sentimentos?
- É! Tá difícil de entender? Por exemplo no momento eu tô vendo uma onda alaranjada em cima da sua cabeça, que pelas minhas conclusões significa que você está aterrorizado.
Não havia como não estar com medo. A menina tinha uma cicatriz que atravessava seu rosto, era muito magra, os olhos fundos, cabelos lisos arrepiados por causa da sujeira e um ar melancólico.
- É, realmente estou aterrorizado. Mas estou com uma dúvida. Porque você deixou sua chave do lado de fora?
- Eu estava sendo perseguida por um urso. Aí eu entrei desesperada e sem querer larguei a chave ali. Não quis voltar porque estava com medo do urso. E eu não fechei a porta pra sua informação.
- Ah... Mas, porque você não vai e vive como os outros?
- Porque toda vez que eu tento mostrar como as pessoas realmente se sentem, elas se assustam e me rogam pragas, me xingam, me batem. Acho que você foi o único que me compreendeu um pouquinho.
A onda de cor em cima da cabeça de Nicholas se transformou em um lilás claro misturado com um vermelho.
- Ah, eu nunca vi essa sensação. O que você está sentindo?
Nicholas só deu um sorriso largo e sentou-se ao lado da menina.
- É... Você tá bem Nicholas, é esse seu nome né?
Nicholas deu outro sorriso e abraçou a menina o mais forte que pode. Ela sentiu terror, mas logo viu que Nicholas não a soltaria tão cedo e colocou seus braços em volta dele também. Ele sentiu lágrimas quentes caírem em seus ombros e apertou ela mais. Nicholas podia sentir os ossos dela, de tão magra que era. Ele foi alargando os braços e se soltando dela. Olhou pra ela e viu um imenso sorriso amarelo, mas encantador.
- É... você tem um nome certo? - disse Nicholas.
- Pode me chamar de Khel. Posso te chamar de Nic?
- É claro!
Khel sorriu para Nic pela última vez e começou a tossir desesperadamente. Ele não sabia o que fazer e tentou bater em suas costas mas não adiantou. Ela colocava as mãos na frente da boca. Quando ela olhou para suas mãos havia sangue. Ela não aguentou e caiu no chão. Nic ajoelhou-se mas não sabia o que fazer.
- Nic, cof cof,  Nic...
- Fala! O que foi?! - disse loucamente.
- Às vezes as pessoas demoram pra descobrir a beleza das outras. Elas têm que procurar essa beleza em quem puderem. Se puder dizer isso pra...
Faltaram-lhe as palavras. Os olhos de Khel estavam fechados e ela estava gelada. Nic chorou por alguém que tinha conhecido a pouco tempo mas era tão bonita internamente que o fez chorar. Largou Khel dos seus braços, cobriu-a com os lençóis, trancou a porta, deixou a chave aonde estava e colocou seus fones de ouvido.Versos em inglês chegavam em seus ouvidos dizendo:
"Nunca é longe demais, nunca é tarde demais, pra dizer a alguém: você é único." (It's never too far, it's never too late to tell someone, you're the only one...)
Nic pegou sua bicicleta e partiu.