18 de abr de 2011

Carta ao mundo



Todo dia parecia que ia ser esmagado contra o chão, como se uma corrente de espinhos me atingisse na cara. Era insuportável. Mas eu engolia seco e virava minha cara. Era extremamente irritante as pessoas julgando meu modo de ser , com quem eu andava e como me comportava. Cada cochicho parecia ser sobre mim e aquilo rodava na minha cabeça me cutucando pra não me esquecer.
A escola era um dos piores lugares pra se estar.
Na minha época, o que faziam comigo não tinha nome e hoje tem, que é chamado bullying. Raramente os professores chamavam atenção e os outros alunos ajudavam a me deixar pra baixo. Tinha poucos amigos, nem conversava, era sempre silencioso e taciturno.
Dia após dia entrava um novo para me provocar. Mas minha paciência sempre foi imensa, e aceitava aquilo como um palhaço que não recebe risadas. Chegando em casa eu me sentia no buraco e minha única salvação era a música. Pensava enquanto ouvia. E dizia a mim mesmo: é só uma fase, é só uma fase. Eu me sentia um sujo, um sequelado, digno de humilhação e sem amor no coração. Era como se todo dia eu entrasse em uma ópera lotada esperando por um show de voz incrível e eu só soubesse imitar uma galinha. Ou ainda como se eu fosse o lugar onde as pessoas descarregam toda sua raiva emocional, achando que eu era forte o suficiente pra aguentar toda aquela pressão.
Como se não bastasse os "elogios" na escola, na internet também ocorria o apelo. E de maneira pior. Parece que falavam ainda mais quando não estavam na minha frente. Mas aí eu pesava: "pelo menos não me batem." E foi assim uma longa parte da minha vida. Poucos amigos, poucas conversas, elogios malcriados. Eu achava que era inveja de alguma coisa, mas não descobria o que.
Aí começou minha busca incessante para saber o que eu tinha de bom. Mas como seria possível descobrir algo bom enquanto caiam bombas atômicas e me deixavam aterrorizado? As pessoas mudavam mas a história era sempre a mesma, e eu acabava como alvo de chacota. Fiquei calado. Não podia deixar que nenhuma palavra minha os deixassem me afetar. Não podia dar argumentos contra meu eu.
Fiquei assim até descobrir pessoas que não julgavam as aparências. E elas me fizeram descobrir do que tantos tinham inveja. Era o amor e calma que meu olhar passava. Um sentimento que quando algúem olha dá vontade de ficar olhando. E a partir dessa descoberta eu fui descobrindo outras habilidades. Mas as sequelas do que sofri ainda permanecem. Sou calado até hoje. Só falo o extremamente necessário.
Ainda sinto que as pessoas falam mais e pior do que antes, mas agora tenho uma força de vontade incrível. Não deixo ninguém me parar. Se você botar o dedo na minha cara eu pulo por cima de você ou mudo de caminho.
O que eu acho chato é que agora surgiu um termo pra definir o que eu sofria e a mídia está estereotipando. Parece que somos frágeis, que somos loucos, que somos pscicopatas. Mas somos gente. Temos tanto amor e felicidade no coração quanto qualquer um. Mas existem uns de nós que não conseguem superar. E é muito difícil superar. As consequências são eternas. Principalmente as boas.
Não precisei sair atirando e matar outros pra me salvar, mas precisei de alguém que me ajudasse. A única coisa que o bullying fez comigo foi me deixar tão forte, tão forte, que hoje em dia não consigo mais chorar. E a única coisa que peço a vocês é que NÃO humilhem quem vocês acham fraco, porque é aquele ali que é o mais forte.
Humilhando o outro, você só se engana.