3 de mar de 2010

Nublado

Era um dia nublado na cidade grande. Todos corriam atrás de guarda-chuvas  porque já começava a cair gotas parecidas com orvalho do céu acizentado. O menino que tinha os maiores problemas do mundo, como ele se definia, tinha acabado de sair da escola. O seu nome era Javier e tinha seus pais separados. Não se dava bem com a namorada que seu pai havia arranjado, nem com o da mãe e tinha poucos amigos. Enquanto ele descia os degraus da porta da escola, a chuva começou a pingar mais forte. Não havia mais ninguém na rua porque não era nem meio dia e chovia. Javier sentia uma forte dor de cabeça, por isso pediu para ir pra casa.

Na sua ida para casa, ocupou-se com pensamentos inúteis como "ninguém me ama", "tenho a pior família do mundo" e "meu pai não me entende". A chuva tinha ficado tão forte que agora ele corria com as mãos na alça da mochila e procurava um lugar para se esconder da chuva tão amaeaçadora, que era um grande problema para o menino com os maiores problemas do mundo. Encontrou uma loja e ficou  e entrou nela para se abrigar.
Parecia que o mundo ia desabar. Trovões, raios, relâmpagos... Ele analisou a loja, que tinha objetos variados e tornou a olhar pra fora. O que viu pare ele era comum: chuva forte, ninguém nas ruas. Mas havia na rua um menino. O mesmo andava devagar na tempestade como se caminhasse pro nada. Até que ele sumiu da vista de Javier, que ainda se preocupava com o encontro com a madrasta à tarde e um pouco de sua dor de cabeça.
A chuva parou e ele caminhou pra casa. No meio de seu caminho deu um tropeção tão forte que caiu como jaca madura. Ele só conseguiu ver que um menino esfregava o braço como se alguém tivesse batido nele. O menino olhava pra ele mas logo ajudou Javier a ficar sentado.
_Você está bem moço? - indagou o menino.
_Parece que estou? Tomei o maior tombo e você anda fica perguntando se eu estou bem? - disse Javier com tom ignorante.
_ Só queria saber se você estava bem porque você me chutou e caiu.
_Ah! Bem feito! Ninguém manda ficar no caminho.
_É melhor tomar um chute do que tomar um tombo e ficar assim como você é.
_Ah É?! - disse Javier chegando mais perto do menino - E como eu sou?
_Você é ignorante e só pensa nos seus problemas.
_Sou assim? Pra sua informação eu sou assim porque eu tenho pais separados e uma madrasta e padrasto muito chatos! Além de um dor de cabeça que aumentou com esse tombo!
_Você tem pais?! Como é ter pais?
_Cala a boca menino! Até parece que você não tem os seus! - disse ele se levantando.
O menino ficou calado e Javier atravessou a rua. De repente Javier sentiu uma mão puxando ele pra trás e um carro passando raspando no seu nariz.
_Pelo jeito você se prende no seu mundinho achando que tem os piores problemas do mundo e enxerga o que não quer. Eu já fui assim.
_ E você não vai pra casa não?! Vai tomar um banho!
_Eu não tenho mais casa. Era do jeito que você era e acabei por matar meus pais. Acho que nunca me arrependi tanto disso.
Javier, pela primeira vez, olhou diretamente nos olhos do menino. Era uma mistura de tristeza com carência. Até que disse algo para o menino.
_Ter pais é... bom. Pensando assim é até legal ter eles por perto.
O menino deu um sorriso mas inclinou a cabeça e chorou. A chuva tinha começado de novo. Com as primeiras gotas que bateram na cabeça de Javier ele já nem lembrava de seua dor de cabeça. Mas sentiu uma vontade imensa de fazer algo.
_Ein... Qual o seu nome? - perguntou Javier ao menino.
_Clive. - mais lágirmas caim do rosto dele misturadas a chuva.
_Clive... Posso te dar um abraço?
O menino teve uma reação que gastaria linhas demais para descrever. Só posso dizer que o abraço na chuva fez Javier esquecer todos os seus problemas. Entre o abraço Clive disse:
_Posso te chamar de pai? É porque mesmo morando na rua é bom gostar de algúem e é bom receber coisas.
_É claro que pode! - disse Javier com entusiasmo lembrando que Clive era o menino que passara lentamente na chuva.
_ Acho que só seu abraço pôde fazer o sol aparecer de novo pra mim. E você deveria ser um exemplo pras pessoas que discriminam e julgam as outras. Porque a partir de hoje você é um sol pelo menos pra alguém! obrigado.
Javier deu um ultimo abraço nele e foi pra casa pensando que os problemas dele não eram nada. Eram só mais um dia nublado na vida. E como nos nossos dias nublados, temos que seguir em frente e abrir o guarda chuva.
Já abriu seu guarda chuva e abrigou alguém?