27 de fev de 2010

Habilidade e uso

_Eu sou do grupo do Spencer! - gritou uma pessoa lá de trás da sala da turma da faculdade.
Spencer. Um homem com uma certa habilidade em criar coisas. Gostava das coisas simples, humildes, às vezes simples de alcançar, às vezes não. Tinha poucos amigos, mas eram pessoas das quais ele gostava muito, muito mesmo.
A turma começou a se juntar em volta de Spencer, cada um querendo uma casquinha de sua habilidade. No final discussão toda, Spencer ficou com uma amiga, um amigo e um colega na mesa.
A profesora entregou a folha em branco na mão do colega de Spencer. Eles estavam na faculdade de jornalismo e tinham que criar um livro e depois fazer uma propaganda televisiva para o produto. A folha em branco passou, passou, passou e chegou em Spencer, como se quisessem que ele fizesse letras aparecerem sozinhas. Ele se sentia estranho, incapacitado, triste. Não pôde escolher com quem poderia desenvolver um trabalho e se fosse escolher com quem ficar naquela "competição" ia virar um solitário, fura olho, o que seja.
_ E aí Spencer? Não tem ideias? - disse a colega.
_ É mesmo Spencer, o que tem em mente? - disse o amigo.
_Não pensei em nada ainda. - disse ele de cabeça baixa.
Spencer tinha um bloqueio mental quando não podia se sentir a vontade com quem estava perto. Nada saia da cabeça dele. E nesse momento ele estava mais que bloqueado, estava sendo pressionado. Até que ele resolveu falar.
_ Vocês só vem quando precisam né? - disse Spencer meio irritado, mesmo que quase nunca conseguir ser uma pessoa irritável.
Um curto silêncio seguido de desculpas criadas pelo amigos e colega. Passaram o resto da tarde criando. Spencer foi o que menos criou naquele dia. O máximo que ele deu foi o slogan do produto. E agora estava nas mãos de Spencer fazer a ideia da propaganda virar realidade.
Chegado o dia da apresentação do produto, a primeira coisa que estava combinada de acontecer era passar o video que Spencer tinha feito, e que só ele havia visto.
_Nós vamos começar nossa apresentação mostrando nossa propaganda. - disse o colega.
O video começou. E o que tinha nele não agradou a todos.
" Você busca quem precisa na hora do aperto? Sim, eu sei que procura! Por isso o video se encerra aqui, para você verem que qualquer um é capaz de criar, mas só com as pessoas certas ao seu redor."
Todos ficaram espantados, pois o video havia terminado, só com aquelas palavras.
Um sussuro envolveu o ouvido de Spencer.
_ Spencer, que droga é essa? Cadê o nosso video? - sussurou o colega.
_ Pode falar pra todos ouvirem! - gritou Spencer ao colega. E continuou.
_Eu prefiro ter que me redobrar para fazer tudo sozinho do que ter gente que se acomoda e não cria suas próprias habilidades, vai atrás de quem já descobriu! E vocês todos aí dessa coisa que chamam de turma, é hora de ver que no mundo dos inteligentes, os espertos ficam como tapete. Eles limpam os pés nos espertinhos, porque os "espertos" se acham espertos usando a habilidade dos outros!
A sala estava toda desperta e nem o professor ousava intervir na fala de Spencer. A verdade bate como fogo e queima tudo o que vê pela frente.
_ E se vocês não aprenderam ainda, os amigos não são pai e mãe pra ficar fazendo tudo o que precisam. Vocês tem que aprender a mudar pro mundo dos inteligentes. - disse ele voltando-se a turma.
Acabava de cair um lágrima do rosto de Spencer. Dessa vez ele abaixou o tom de voz e falou bem baixo.
_Prefiro tirar vermelho nesse trabalho do que deixar gente ficar babando no meu ouvido querendo tudo na mão. E ainda deixar gente que eu gosto magoada.
Spencer foi aplaudido tanto que o barulho ecoava pelos corredores da faculdade. Com timidez pelos aplausos, ele ainda disse depois que os aplausos foram diminuindo:
_ Se vocês tivessem vergonha na cara, não iriam me aplaudir, e sim olhar suas atitudes daqui pra frente.
Depois desse dia, o trabalho foi anulado, e também os trabalhos em grupo eram feitos por sorteio.
Mas Spencer queria ser gostado pelos outros, não escolhido pelas suas capacidades.
Você vai precisar de um Spencer gritando no seu ouvido para parar de usar os outros? Se precisar, é so chamá-lo. Ou eu chamo ele pra você.