10 de fev de 2016

Coexistir

Algo incomodava Phobos e ele provavelmente sabia o que era. Estava impaciente no quintal de sua casa esperando que acontecesse. As folhas balançavam e caiam aos poucos em sua volta. A grama era mais verde do que sempre, apesar do marrom das folhas secas. Uma pequena mecha brilhante despontou no portão, correndo. Pela afobação parecia urgente.

_ Vem Phobos! Precisam de você! - disse Miska afoita.

Eles dois correram até chegar a casa do vizinho, na garagem, para ser exato. E lá estava o que Phobos esperava e não queria aceitar.
Quatro pessoas estavam vestidas de branco, cabisbaixas, enquanto duas outras estavam abaixadas, com roupas comuns. A garagem estava sem carros, mas parecia cheia.

_ Phobos! Vem, me ajuda a fazer a Cura - disse Jofrey, uma das pessoas que estavam abaixadas, assustado.
_ Eu não me lembro das palavras, não sei se consigo!

Tudo parecia convergir para as quatro pessoas de branco, que permaneciam imóveis e imensas. A pressão no ambiente era destacável e mostrava-se imponente sobre as pessoas que ali estavam, oito no total.

Phobos ajoelhou-se como as outras duas pessoas, olhou para Jofrey que sinalizou com um sinal positivo. Tudo começava a voltar em sua memória, como ondas de maré cheia. As palavras que precisavam ser ditas vieram facilmente, junto com sua saliva. Elas ardiam em sua boca e pesavam a cada sílaba. Phobos tinha um dom e não gostava de usá-lo.

O motivo era simples: ele era perseguido. A Cura era aplicada sobre o Mal que estava em algumas pessoas, mas quando o Mal saia, ele não era simplesmente apagado, e sim o perseguia. Quanto mais curas feitas, maior a perseguição.

Phobos tinha o dom da Bondade. E o Mal, sempre quer destruir o Bem.

A Cura ocorreu como devia, e os quatro jovens de branco foram colocados em repouso em um cômodo próximo a sua casa. Jofrey desapareceu assim que tudo terminou. Miska ficou com Phobos, mas antes de sair foram verificar se todas as pessoas em branco estavam em total repouso. Após checar tudo, se viraram e começaram o caminho para casa.

Um dos jovens levantou e agarrou o pescoço da moça, deixando-a sem ar.

_ Socorro! - disse ela aos engasgos.

O jovem simplesmente olhava para Phobos, enquanto estrangulava Miska. O desespero tomou conta mas nada vinha a cabeça do dono da Bondade.

_ Largue ela - disse Phobos calmamente com os olhos fechados - Sou eu quem você quer.
_ O Mal ainda vai te consumir - disse o jovem.
_ Não enquanto eu acreditar plenamente no Bem.

O rapaz saiu do transe e desmaiou. Miska recuperou-se enquanto o outro fechava o menino no cômodo, juntamente com os outros.

_ O que aconteceu?
_ Vamos pra casa Miska, não quero te envolver nisso.

Miska segurou o choro mas permaneceu calada.

A noite não foi tranquila. Phobos rolava em sua cama com a sensação de perseguição a cada segundo. Todo o pesadelo que ele tinha insistido em fugir havia voltado com força intensa. Sua cabeça girava procurando um sentido naquilo tudo, enquanto seu corpo procurava descanso. Um clarão começou a surgir pela janela. Parecia que ele estava finalmente entrando em um sono tranquilo.

_Fogo! Phobos! Fogo! - gritava Miska.

O cômodo que os jovens estavam pegava fogo intensamente e labaredas cobriam o ar. Uma pessoa em branco estava na frente do fogo.

Phobos desceu correndo e encontrou o rapaz com o Mal.

_ Você outra vez? - Phobos suava intensamente devido ao calor.
_ Agora entendi você.

Os dois se olhavam com dúvidas.

_ Não adianta fugir dos seus medos Phobos, eles voltarão. Assim que você disse que acreditava plenamente no bem, entendi o meu medo. Tinha medo do Bem, assim como você tem do Mal. Somos forças contrárias mas não podemos existir sozinhas. Não faria sentido ter um bem sem um mal, assim como a luz e a escuridão.

Phobos respirava ofegante e estava a beira de um colapso.

_ Suas acusações podem até fazer sentido. Mas como vou viver com medo de você? - lançou Phobos assim como as chamas se lançavam no ar.

O jovem se virou para o fogo e voltou a olhar para o dono da Bondade.

_ Dentro de cada um de nós existe o Bem e o Mal. Não fique com medo do Mal te dominar se você acredita plenamente. Não haverá mais perseguição assim que aprendermos a coexistir.
_ Somente com o equilíbrio podemos coexistir, se for assim.
_ Se você for puramente bom, como pode existir sozinho?

Phobos fechou os olhos. Sua mente estava a mil por hora. Abriu os olhos e não viu mais nada.
Estava simplesmente em um parque, com o sol se pondo como labaredas de fogo. Continuou passeando pelo local e viu uma placa de um loja de jóias: Miska. Logo a frente, quatro jovens de branco se fingindo de estátuas.

Ele sorriu.