2 de abr de 2011

Reparo

Hikaru estava no campo deitado. Era noite. Não haviam estrelas no céu, só nuvens escuras. Ele estava esperando a chuva começar. Se sentir daquele jeito não o deixava bem, queria lavar a culpa pra fora. Sentou e olhou pra suas mãos. Como pode fazer aquilo? A chuva começou e com ela um barulho estranho veio.
Hikaru se levantou e sentiu a chuva. Mas o barulho crescia, parecia um motor de geladeira, bem alto. Ele foi seguindo até encontrar a fonte. Arregalou os olhos quando viu uma criatura que emanava luz do seu ser e torcia a cabeça, como se estivesse louco. Hikaru se aproximou mais e tentou tocar a criatura, mas ela soltou um gemido. Com o susto, Hikaru caiu no chão. Estava no meio de uma moita. O ser estava de olhos fechados mas parecia que olhava pra ele. Era uma estranha sensação, mas a culpa transbordava Hikaru. As lembranças começaram a voltar mais fortes com a presença do "trem".
Hikaru estava voltando da escola quando esbarrou numa garota do 1º ano e fez com que ela deixasse os livros caírem. Obviamente ele ajudou ela a carregar os livros e acompanhou-a até sua casa. Ela o convidou pra entrar. Ao entrar, Hikaru esbarrou em uma vela que estava acesa na mesa e deixou-a cair no carpete, que logo pegou fogo e foi incendiando a casa. O fogo foi incontrolável e ele correu da casa deixando a menina e seus gritos para trás.
Ele continuava olhando para a criatura que vibrava e soltava exquisitos sons. O "bicho" cessou o barulho e botou as mãos na boca. Abriu os olhos. Eram de um rosa extremamente vivo. Quando o olhar do ser atingiu Hikaru, ele ficou paralisado com os sentimento de culpa a flor da pele.
- Hikaru - sussurrou o bicho.
A resposta foi uma respiração ofegante.
- Sabe quem eu sou Hikaru?
A chuva rebatia o solo com força mas a noite continuava densa.
- Não vai me responder Hikaru?
- Não, n-n-ão sei quem você é. - gemeu ele.
- Sou o seu anjo da guarda.
Hikaru engoliu seco. Nunca acreditara em anjos e agora havia um ser estranho olhando a ele dizendo-se seu anjo.
- A-a-anjo?
- É, aquele que te protege dia e noite sem cessar. Você sabe que me feriu?
- T-t-te feri?
- Sim, Hikaru. Quando você fere seus sentimentos você me machuca muito. E você cortou seu coração malignamente.
Hikaru respirava ofegante e lembrava do fogo dominando a casa. Ele poderia ter feito algo. Podia ter salvado a menina. Mas seu egoísmo e medo foram maiores. Quando ele saiu da casa, não gritou por socorro, foi direto para seu confortável quarto, em sua amável casa.
- E-e-e-eu... Desculpa! - gritou ele.
- Não é a mim que você deve isso.
O anjo começou a se desintegrar. Hikaru entrou em desespero.
- Não! Não vai embora.
- É hora de me recuperar, mas depende só de você Hikaru.
A chuva levava as lágrimas de Hikaru. Ele chorava, soluçava, não sabia o que fazer. Voltou para sua casa, para pensar um pouco. Ao caminho, na chuva, encontrou uma lojinha interessante e entrou pra se distrair um pouco. A loja era escura e com papeis de parede esquisitos. Achou um objeto pontiagudo e começou a manuseá-lo. Sentiu uma dor, acabara de furar-se. Chupou o sangue que aparecia em seu dedo e olhou para fora. Era dia. Olhou em volta da loja e não via ninguém. Caminhou pra fora e havia uma pessoa apressada, porém parada, como se o tempo estivesse esperando por algo. Olhou para cara da pessoa apressada e os olhos dela tornaram-se rosa vivo, como o do anjo. Uma voz ameaçadora disse:
- Só depende de você.
Hikaru captou a mensagem e correu para a casa que pegara fogo. Chegando lá encontrou-se congelado na porta, fugindo do incêndio. Hikaru passou por trás dele mesmo e entrou na casa. O fogo estava paralisado como todas as outras coisas. Ele viu a menina no meio da fumaça, mas o fogo não havia chegado até ela. Encontrou um caminho e pegou a menina paralisada  e a levou pela porta dos fundos, deixando-a no quintal. Deu a volta, pulou a cerca, olhou-se novamente e voltou ao local onde tinha encontrado a loja. Entrou de novo, pegou o objeto pontiagudo e furou sua mão. Sentiu uma dor e chupou o sangue. Quando olhou pra fora já era noite e chovia. Correu pra fora da loja e voltou ao campo em que encontrara o anjo. Gritou para os altos:
- Fiz o que podia, está satisfeito agora?
Nada o respondeu, só a chuva que caia inensamente. Deitou-se no chão e respirou fundo, aliviado. O sentimento de culpa tinha ido embora. Mas será que o seu anjo estaria sempre ali pra alertá-lo que havia um dano a ser reparado? Será que aquela loja realmente exisitia? Hikaru não quis saber a resposta e adormeceu sobre a chuva.
Uma coisa ele aprendeu: a pior coisa de ferir os outros é ferir-se, de um jeito pior. E temos que consertar. De alguma forma.